24.8.10

Mensagem Levítico 13:47-52

A Questão da Lepra

1. INTRODUÇÃO

Também chamada morféia ou hanseníase, a lepra é uma das doenças que mais atemorizaram o homem de todos os tempos. Durante séculos, os indivíduos afetados pela moléstia foram submetidos ao isolamento e confinados em leprosários, ilhas e outros lugares separados dos núcleos habitacionais, onde levavam vida de sofrimento e miséria.
A hanseníase é uma doença infecciosa de origem bacteriana causada pelo bacilo de Hansen (Mycobacterium leprae), descrito pelo médico norueguês Gerhard Armauer Hansen no ano de 1874. Embora ainda não seja possível afirmar com precisão como se dá a transmissão, acredita-se que o contágio pode ser direto, de uma pessoa para outra, sendo necessário um convívio prolongado e íntimo, em condições sanitárias deficientes, ou indireto, por meio da roupa. O período de incubação é prolongado, entre três e seis anos.
A hanseníase ataca principalmente o tecido epidérmico e o sistema nervoso, e se manifesta de duas formas básicas: a lepra lepromatosa (L), origem de numerosas lesões em mucosas, pele, olhos e membros, caracterizada por ulcerações e necrose (destruição e morte) dos tecidos afetados; e a lepra tuberculóide (T), com uma série de placas e manchas na pele, dolorosas a princípio e depois indolores em conseqüência da perda da sensibilidade na região afetada.

Nas páginas do Antigo Testamento, a palavra usada para lepra é teru (tsara‘ath), que ocorre trinta e cinco vezes, quase todas em Levítico. Suas idéias básicas são:

a) lepra em pessoas, doença maligna na pele (e.g. Lv 13:1-14,57);
b) lepra em roupas, podendo referir-se a fungo ou mofo (Lv 13:47-52); ou
c) lepra em edificações, também com o sentido de fungo ou mofo (Lv 14:34-53).

O verbo hebraico eru (tsara‘) designa o fato de alguém ser portador de doença de pele, ser um leproso, ter lepra.
No contexto das Escrituras, a lepra é uma doença caracterizada pela brancura (cf. Êx 4:6) e por inchações, tumores ou manchas que desfiguram a pele. Sua descrição no Livro de Levítico (Lv 13-14) provavelmente incluía outras doenças da pele, além da lepra conhecida hoje. Como vimos acima, um tipo de mofo era chamado de lepra (cf. Lv 13:47-59; 14:33-57}. Os leprosos eram forçados a morar longe das outras pessoas e, quando se aproximassem delas, deviam gritar: "Imundo, imundo!" Já no contexto do NT, encontramos uma total modificação dessa segregação social, pois podemos ver a forma maravilhosa como o Senhor Jesus curou leprosos (Mt 8:2-4; Lc 17:11-19).
Algumas dúvidas têm surgido ao longo dos tempos acerca das prescrições contidas no AT em relação à lepra. No entanto, é bom que não percamos de vista, que o propósito primordial de Deus em exigir tais cuidados, se prende ao Seu cuidado para com Seu povo. As recomendações visavam conservar puro o arraial, isolando aqueles que padeciam de algum tipo de doença de pele, até que se pudesse definir o que realmente estava acontecendo.
É dentro deste prisma que verificamos os primeiros versos de Levítico capítulo treze, exortando quanto à necessidade de um exame acurado quanto ao suposto leproso. Observemos que o sacerdote não tentava nenhuma terapêutica, mas unicamente vigilância com respeito aos suspeitos. Em seguida, diz o texto sagrado que havia todo um processo de observação, até que se pudesse estabelecer tratar-se ou não de lepra. O verso cinco nos informa:
“E, ao sétimo dia, o sacerdote o examinará; e eis que, se a praga, ao seu parecer, parou, e a praga na pele se não estendeu, então, o sacerdote o encerrará por outros sete dias”.
Já o verso seis estabelece:
“E o sacerdote, ao sétimo dia, o examinará outra vez; e eis que, se a praga se recolheu, e a praga na pele se não estendeu, então, o sacerdote o declarará limpo: apostema é; e lavará as suas vestes e será limpo” (ARC).

Na ARA, o termo “apostema” é vertido como “pústula”, que por sua vez vem do hebraico txpom (micpachath), que pode significar erupção ou sarna.
Por outro lado, temos as declarações dos versos doze e treze do mesmo capítulo de Levítico:
“Se a lepra se espalhar de todo na pele e cobrir a pele do que tem a lepra desde a cabeça até aos pés, quanto podem ver os olhos do sacerdote então, este o examinará. Se a lepra cobriu toda a sua carne, declarará limpo o que tem a mancha; a lepra tornou-se branca; o homem está limpo”.
É de bom alvitre que observemos que o final do verso treze declara “a lepra tornou-se branca”. Isto estabelece uma certa relação com este tipo de mancha aos versos cinco e seis. É bom que lembremos que as manchas que por fim são consideradas efetivamente lepra, são as “lustrosas” (do hebraico ryhb (bahiyr), brilho, brilhante (de luz). Já as manchas brancas estão relacionadas com o hebraico Nbl (laban). Portanto, a presença de manchas brancas generelizadas e sem inchação (Lv 13:10), seria claramente observado como outra enfermidade da pele.
Em resumo, podemos concluir que a quando a pele tornava-se totalmente branca, era sinal de que a pessoa estava curada ou de que as manchas não eram sinal de lepra.
No Segundo Livro dos Reis lemos sobre Naamã, o sírio:

“E Naamã, chefe do exército do rei da Síria, era um grande homem diante do seu senhor e de muito respeito; porque por ele o Senhor dera livramento aos siros; e era este varão homem valoroso, porém leproso”. (2Rs 5:1).
Ao se ler o texto acima, surge um questionamento lógico: como Naamã, embora portador de lepra poderia ocupar o posto de General do Exército da Síria?
A resposta a este questionamento não é tão complexa quanto aparenta ser. Israel possuía um código legal bem mais adiantado que as nações vizinhas. Nelas, a lepra era vista como um mal, com certeza, mas não com os cuidados peculiares a Israel.
Além disso, o próprio texto sagrado nos mostra os motivos pelos quais, mesmo sendo leproso, Naamã era o General dos Exércitos da Síria:

a) era “grande”, heb. ldg (gadhol), grande (em magnitude, em importância) e “homem”, heb vya (‘iysh), homem, campeão;

b) também era “de muito conceito”, “de muito respeito”, do verbo heb. asn (nasa’), levantar, erguer, exaltar; e

c) era “varão valoroso”, heb. rbg (gibbor), homem forte, homem corajoso, homem valente

Por estas informações, podemos concluir que a lepra de Naamã, embora vista com maus olhos, não se constituiu em impedimento para sua ascensão, por ser ele grande em importância, valente e exaltado entre seu povo, pelo fato de haver o próprio Senhor lho concedido tais honrarias na Síria, a fim de que em sua vida o Nome do Senhor fosse exaltado.

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